A conversa pública sobre hormonas, ciclos menstruais, síndrome do ovário policístico, endometriose e perimenopausa está atrasada décadas, mas felizmente começa-se a falar mais sobre estes temas tão importantes para a saúde feminina.
Foi o caso de um episódio do podcast “The Diary Of A CEO” que tive a oportunidade de ver recentemente. Neste episódio, quatro profissionais de diferentes áreas da saúde, partilharam o seu conhecimento, investigações e experiência clínica para ajudar mulheres, e homens, a compreender o que o corpo feminino precisa para funcionar bem em cada fase da vida.
Este artigo reúne os pontos essenciais extraídos desse episódio, para clarificar alguns mitos, dar passos concretos e saber quando é que devemos procurar ajuda.
Porque é que precisamos de falar de saúde feminina já?
As mulheres constituem uma grande parte da população mundial, embora ainda não existam dados concretos relativamente a percentagens, no entanto, e tendo em conta o peso em densidade populacional do sexo feminino, grande parte das orientações clínicas no que respeita a cuidados de saúde, a investigação científica ainda não alocou ou direcionou verbas suficientemente significativas para estudar a saúde da mulher. E porque é que esta questão é preocupante? Porque a baixa produção de evidência cientifica vai-se refletir em diagnósticos tardios, tratamentos desajustados e anos de sofrimento evitável.
E como é que chegámos aqui? Durante a formação em medicina ou noutras áreas da saúde, as mulheres foram excluídas do desenho de estudos. O corpo masculino foi o padrão e os resultados generalizaram-se para mulheres, ignorando diferenças fisiológicas como o ciclo menstrual. E apesar da inclusão de mulheres em estudos, ter passado a ser obrigatória um pouco por todo o mundo, muitos estudos com características que se podem aplicar a ambos os sexos, ainda contêm uma participação reduzida de participantes do sexo feminino por alegada “complexidade” devido às flutuações hormonais. Ou seja, não significa que seja mais difícil estudar o sexo feminino, o que significa é que existem mais variáveis em jogo que têm de ser levadas em consideração e isso dá mais trabalho e carece de um maior investimento.
Vamos então ao básico: Diferenças fisiológicas que importam

Os homens e as mulheres não só têm órgãos reprodutivos diferentes, como também apresentam diferenças de base que afetam o sistema muscular, o metabolismo, os ossos, o coração e a resposta a fármacos. Por exemplo:
- As mulheres têm mais fibras de resistência e os homens mais fibras de potência.
- As mulheres têm um coração e uns pulmões com menor dimensão
- As mulheres têm hemoglobina.
- Os homens têm uma maior facilidade em adquirem e manterem a sua densidade óssea.
Hormonas: o sistema de mensagens do corpo
As hormonas são mensageiros que coordenam os órgãos e as células. E os recetores de estrogénio estão em todo o corpo: cérebro, osso, músculo, intestino, vasos sanguíneos. Por isso, é que reduzir as hormonas femininas a simples hormonas “sexuais” empobrece a compreensão do seu valor, tendo em conta que as ação das hormonas é dinâmica e que responde a factores como o sono, o stress, a alimentação e o exercício.
Folículos, estrogénio e progesterona, o básico útil (e traduzido por miúdos)
- Fase folicular: do dia 1 da menstruação (quando aparece o fluxo de sangue vivo) até à ovulação. O FSH (a hormona folículo-estimulante), vindo do cérebro, faz crescer um folículo. O folículo produz estrogénio, que faz os níveis de estrogénio subirem no nosso corpo e como consequência pára a hemorragia menstrual. É uma altura em que muitas mulheres referem que se sentem com mais energia, melhor concentração e mais predispostas socialmente.
- Ovulação: momento em que ocorre um pico de LH (hormona luteinizante) que vai libertar o óvulo.
- Fase lútea: por esta altura o folículo transforma-se em corpo lúteo (o “papel de embrulho” do óvulo) e pulsa progesterona. O corpo prepara-se para uma possível implantação, altera o metabolismo, aumenta a temperatura corporal, o apetite e a fadiga. A variabilidade da frequência cardíaca também tende a diminuir.
O que é um ciclo “normal”

“Normal” é tudo o que for previsível para ti enquanto ser individual, mas considera-se um ciclo regular, um ciclo com uma duração média de 25 a 35 dias (por isso é que se utiliza como regra padrão os 28 dias). Quando uma ou duas vezes por ano o ciclo sai desta regra, pode não significar nada (o stress, uma viagem, alguns medicamentos podem ter esse efeito), MAS quando o ciclo é repetidamente irregular, então, sim, é sinal de alarme. Se não tens menstruação e não usas contraceção hormonal, procura um profissional de saúde. Lembra-te que a ausência de estrogénio prejudica a saúde óssea, o cérebro, a energia, o humor e a libido.
Acompanhar ovulação ajuda a detetar fases lúteas curtas e ciclos anovulatórios.
As aplicações podem ajudar a identificar a janela fértil, os 5 dias antes e o dia de ovulação.
SOP: mais do que ovários
A síndrome dos ovários poliquísticos é, em grande parte, uma questão metabólica e de resistência à insulina. Não é culpa tua. Eu tenho todo um curso sobre como podes reverter a Síndrome do ovário poliquistico naturalmente.
Ferro e anemia: não ignores
Muitas mulheres em idade fértil apresentam défice de ferro, sobretudo devido às perdas menstruais regulares. O primeiro sinal deste desequilíbrio é, na maioria das vezes, uma ferritina baixa, mesmo quando os níveis de hemoglobina ainda se mantêm dentro da normalidade — ou seja, antes de surgir uma anemia diagnosticável.
É importante compreenderes que os valores de referência laboratoriais representam médias populacionais, e não necessariamente os níveis ideais para energia, clareza mental e desempenho físico. Diversos especialistas consideram que manter a ferritina entre 60 e 100 ng/mL é mais adequado para o funcionamento óptimo do organismo.
A interpretação dos resultados deve ser sempre feita no contexto dos sintomas: fadiga, queda de cabelo, unhas frágeis, tonturas, falta de ar, irritabilidade ou dificuldade de concentração podem indicar deficiência de ferro mesmo com análises aparentemente “normais”.
Em caso de suspeita ou confirmação de ferritina baixa, é fundamental avaliar as causas (perdas menstruais excessivas, absorção intestinal deficiente, alimentação pobre em ferro biodisponível) e ajustar a estratégia nutricional e suplementar com acompanhamento profissional.
Contraceção: benefícios, riscos e contexto
A pílula anticoncecional combina etinilestradiol (um estrogénio sintético) e progestagénio, que “enganam” o eixo hormonal cerebral, reduzindo a FSH e a LH e, assim, bloqueando a ovulação. É um método eficaz e pode ser útil em situações como acne, síndrome dos ovários policísticos (SOP) ou ciclos muito irregulares.
Contudo, o tecido corporal responde de forma diferente às hormonas sintéticas comparativamente às naturais, e a supressão prolongada da ovulação pode afetar o humor, a libido e até a densidade óssea, especialmente em adolescentes e atletas jovens, cujo pico de massa óssea ainda está em formação.
Portanto, a pílula contracetiva deve ser vista como uma estratégia pontual, indicada para casos específicos e sempre baseada numa decisão informada e consciente — considerando não apenas a eficácia, mas também o impacto a longo prazo sobre o corpo, o ciclo e o bem-estar emocional.
Se sentes receio ou insegurança em deixar a pílula, convido-te a assistir ao meu webinar sobre a pílula, onde explico como fazer a transição de forma segura, apoiando o teu corpo na recuperação hormonal e acelerando o retorno ao ciclo natural.
É uma oportunidade para compreender o teu corpo em profundidade e dar o próximo passo rumo ao teu equilíbrio hormonal e vitalidade.
Perimenopausa: começa antes do que pensa
A perimenopausa costuma iniciar-se 7 a 10 anos antes da menopausa. Em média, isto significa entre os 35 e os 45 anos, com variações individuais. Nesta fase, o número de folículos diminui, o ovário torna-se menos previsível e o cérebro “grita” mais alto através da FSH e da LH para estimular a ovulação. O resultado? Ciclos inicialmente mais curtos, seguidos por flutuações marcadas de estrogénio e progesterona.
O sintoma mais comum é o sentimento de “já não me reconheço”. O sono fragmenta-se, surge a ansiedade, a tristeza, o nevoeiro mental e uma menor tolerância ao stress. Estima-se que a saúde mental se agrave nas mulheres durante esta transição.
Um dado útil: pergunta à tua mãe e irmã quando foi a menopausa delas. Uma menopausa materna antes dos 46 anos multiplica por seis o risco de uma menopausa precoce.
O ano de espera é um mito custoso
Definir a menopausa apenas após 12 meses sem menstruação leva a que muitas mulheres sofram sem o apoio adequado. O corpo precisa de estrogénio — para o cérebro, ossos, coração, vasos e vagina — muito antes de deixar de sangrar, de deixar de ter hemorragia menstrual e nós, mulheres, temos que intervir o mais cedo possível para melhorar a nossa qualidade de vida e proteger a nossa saúde a longo prazo.
Também tenho um webinar sobre perimenopausa, onde explico como atravessar esta fase de forma natural, com base científica e estratégias práticas.
Nem tudo são hormonas
Sem proteína suficiente, treino de força, cardio, sono e gestão do stress, nenhuma terapêutica faz milagres. Estes são os pilares fundamentais do equilíbrio hormonal. As estratégias suplementares são apenas uma das ferramentas disponíveis — o essencial é uma decisão informada e adaptada a cada mulher.
A saúde feminina é a saúde de corpo inteiro e o ciclo menstrual é um marcador de vitalidade, não apenas um requisito para engravidar.
Reforça os pilares: sono, gestão de stress, massa muscular, fibra e escolhas equilibradas.
O passo seguinte é simples: acompanha o teu ciclo, regista os sintomas, marca análises e leva estas notas à tua consulta.
Acima de tudo lembra-te: a curiosidade aliada à acção informada tem o poder de mudar toda a trajectória da tua saúde.
