Ferropénia nas mulheres: o que as análises de rotina não mostram

Acordas como se não tivesses dormido. Subir um lance de escadas deixa-te com falta de ar. O cabelo cai mais do que o habitual e tu já não sabes se é “do stress” ou se é outra coisa. Foste fazer análises, mas disseram-te que estava “está tudo bem” e ficaste com uma sensação estranha, a de que o que sentes no corpo não bate certo com o que está no papel.

Se te identificas, este artigo é para ti. Vou explicar-te, de forma clara, por que é que muitas mulheres em Portugal andam com ferro a menos sem o saberem, onde é que as análises de rotina costumam falhar e que estratégias podes começar a aplicar hoje, sempre em diálogo com a tua naturopata ou outro profissional de saúde.

O que é a ferropénia?

Ferropénia é a palavra técnica para “ferro a menos no organismo”. O ferro é um mineral essencial para o transporte de oxigénio (através da hemoglobina, a proteína dos glóbulos vermelhos), para a produção de energia nas células, para a função cognitiva e para o equilíbrio hormonal.

Há, no entanto, uma distinção:

  • Ferropénia sem anemia. As tuas reservas de ferro estão baixas, mas a hemoglobina ainda está dentro dos valores. Já tens sintomas, mas o hemograma de rotina está “normal”.
  • Anemia ferropénica. As reservas estão tão esgotadas que já não há ferro suficiente para produzir glóbulos vermelhos saudáveis. A hemoglobina cai.

A primeira fase pode durar meses ou anos. E é exactamente nessa fase que muitas mulheres ouvem que “está tudo bem”.

Em Portugal, isto não é uma exceção.

O estudo EMPIRE, conduzido pelo Anemia Working Group Portugal, estima que cerca de 32% dos adultos portugueses tenham ferropénia, considerando uma ferritina abaixo de 30 ng/mL. Nas mulheres, esse valor sobe para perto de 38%, contra 25% nos homens. Em grávidas, a prevalência aproxima-se dos 53%.

Resumindo: em Portugal, é razoável estimar que pelo menos uma em cada três mulheres em idade fértil tem ferro a menos. E muitas delas nunca foram avaliadas correctamente.

A Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal recomenda o rastreio com ferritina sempre que há suspeita e considera uma ferropénia sempre que o valor está abaixo de 30 ng/mL, independentemente de haver anemia.

O ferro do corpo está organizado em quatro compartimentos

Esta é, talvez, a parte mais importante deste artigo. Quando pensamos em ferro, pensamos só no resultado final, a hemoglobina. Mas o corpo tem quatro fases de gestão do ferro e cada uma cai numa altura diferente.

1. Reserva. Medida pela ferritina, a proteína que guarda o ferro dentro das células. É a primeira a esvaziar quando há défice.

2. Transporte. Medido pela saturação da transferrina, ou seja, a percentagem da proteína que transporta ferro no sangue que está efectivamente carregada. Abaixo de 20% considera-se que o fornecimento está comprometido.

3. Função. Medida pela hemoglobina dos reticulócitos, que são os glóbulos vermelhos jovens, acabados de nascer. É um marcador funcional de quanto ferro está realmente a chegar à produção de células novas.

4. Atraso. Medida pela hemoglobina total, a do hemograma comum. Cai por último, semanas depois das outras.

O hemograma de rotina que te pedem na consulta mede só a quarta. Por isso, quando a análise vem alterada, o défice já está instalado há algum tempo.

Porque é que a tua análise pode dizer “normal” e tu continuares sem ferro

Há três razões principais para o subdiagnóstico:

1. O hemograma não inclui a ferritina. A maior parte dos pedidos de análise de rotina não inclui ferritina nem saturação da transferrina. Se não a pedires especificamente, o teu défice de reservas passa despercebido.

2. Os laboratórios assinalam “baixo” só em valores muito extremos. A maioria dos laboratórios portugueses só marca a ferritina como alterada abaixo de 10 a 15 ng/mL. Acima desse corte, o resultado aparece “dentro dos valores”, mesmo quando há défice biológico.

3. Não há consenso internacional sobre o ponto de corte. E sobre isto vamos ver melhor a seguir.

O que é um valor “baixo”?

Não há uma única resposta. Depende da instituição que consultas.

  • Organização Mundial da Saúde (OMS), 2020. Considera défice de ferro abaixo de 15 ng/mL.
  • American Society of Hematology, na sua proposta de 2025. Sugere o corte de 25 ng/mL para mulheres a menstruar.
  • Dados populacionais (NHANES III). Mostram que a hemoglobina começa a descer quando a ferritina cai abaixo de 25 a 33 ng/mL, sugerindo que esse é o limiar fisiológico.
  • Portugal (SPOMMF). Recomenda o valor de 30 ng/mL para considerar ferropénia, mesmo sem anemia.

Tradução: uma ferritina de 18 ng/mL passa em quase todos os laboratórios como “normal”, e, ainda assim, justifica uma avaliação cuidada. Se te disserem que está “ao limite”, é um sinal para olhar com mais atenção, não para descartar.

Cuidado: a ferritina sobe quando há inflamação

A ferritina tem uma característica importante que muita gente desconhece. Para além de ser um marcador de reservas de ferro, é também o que chamamos de uma proteína de fase aguda, ou seja, sobe quando há inflamação no corpo, mesmo que as reservas estejam vazias.

Imagina o seguinte cenário. Tens uma inflamação intestinal silenciosa, uma doença auto-imune ainda não diagnosticada ou simplesmente estiveste constipada na semana das análises. A tua ferritina pode aparecer com 60 ou 80 ng/mL e parecer óptima. Mas, no fundo, podes estar com um défice, escondido pela inflamação.

A solução é simples: pede sempre a PCR (proteína C reativa) em conjunto com a ferritina. A PCR é um marcador directo de inflamação. Se estiver elevada, a tua ferritina tem de ser interpretada à luz desse facto.

Se houver inflamação activa, um cálculo correctivo (ou a medição do receptor solúvel da transferrina, sTfR, que é menos influenciado pela inflamação) ajuda a perceber se há défice ou não.

Mais ferro nem sempre é melhor: o que a ciência mostrou nos últimos anos

Durante décadas, a recomendação foi simples: se tens ferro a menos, toma um suplemento de ferro todos os dias, de preferência várias vezes ao dia. Hoje sabemos que essa abordagem é contraproducente.

A descoberta-chave foi a da hepcidina, uma hormona produzida pelo fígado que regula a entrada de ferro na circulação. Quando tomas uma dose de ferro acima de 60 mg, a hepcidina sobe e mantém-se elevada cerca de 24 horas. Durante esse período, fecha-se a “porta” por onde o ferro sai das células intestinais para o sangue. Resultado: a dose que tomas no dia seguinte é absorvida 35 a 45% menos.

Quatro estudos rigorosos, conduzidos pelo grupo de nutrição da ETH Zurique, confirmaram o mesmo padrão:

  • Moretti et al., 2015 (revista Blood): doses de ferro acima de 60 mg aumentam a hepcidina por 24 horas e reduzem a absorção do dia seguinte. DOI: 10.1182/blood-2015-05-642223
  • Stoffel et al., 2017 (Lancet Haematology): em mulheres com ferro baixo, mas sem anemia, a toma em dias alternados absorveu mais ferro (21,8% versus 16,3%) do que a toma diária, com a mesma dose total. DOI: 10.1016/S2352-3026(17)30182-5
  • von Siebenthal et al., 2023 (EClinicalMedicine): ensaio duplamente cego com 150 mulheres, durante 6 meses. A toma em dias alternados resultou num menor défice de ferro ao fim de 6 meses e em menos efeitos secundários gastrointestinais, com a mesma dose total. DOI: 10.1016/j.eclinm.2023.102286

Conclusão: para muitas mulheres com ferropénia sem anemia grave, doses moderadas (40 a 80 mg de ferro elementar), tomadas em jejum e em dias alternados, podem ser mais eficazes e melhor toleradas do que doses diárias. Importante: para casos de anemia ferropénica clínica estabelecida, a recomendação portuguesa actual continua a ser de 60 mg diários e a decisão deve sempre ser feita com acompanhamento profissional.

5 estratégias para melhorar uma ferropénia

Aqui está o que podes começar a fazer, em paralelo com a tua avaliação clínica.

1. Pede análises completas, não só o hemograma

No próximo pedido de análises, certifica-te de que estão incluídos:

  • Hemograma completo
  • Ferritina e Saturação da transferrina
  • PCR (proteína C reativa) para descartar uma inflamação que possa estar a mascarar o valor da ferritina
  • Vitamina B12 e folato, que andam de mãos dadas com o ferro na produção de glóbulos vermelhos

2. Combina ferro com vitamina C, em todas as refeições

A vitamina C transforma o ferro não-heme (o ferro presente nos vegetais, leguminosas e cereais) numa forma química que o intestino absorve melhor. Estudos mostram que cerca de 75 mg de vitamina C podem aumentar a absorção do ferro não-heme em três a quatro vezes.

Ideias práticas: Espreme limão fresco por cima das lentilhas ou do grão-de-bico. Come um kiwi ou uma laranja a seguir à refeição principal. Junta pimento cru (vermelho ou amarelo) à salada. Adiciona tomate fresco a pratos com leguminosas

3. Afasta os “inibidores” da absorção das refeições com ferro

Algumas substâncias bloqueiam directamente a absorção de ferro. Não tens de as eliminar, basta afastá-las temporalmente:

  • Café e chá (preto, verde, branco). Os taninos ligam-se ao ferro. Bebe 1 a 2 horas antes ou depois das refeições principais, nunca durante ou logo a seguir.
  • Cálcio em doses elevadas. Suplementos de cálcio e laticínios em grande quantidade competem pelos mesmos canais de absorção. Distribui-os por outras alturas do dia.
  • Vinho tinto. Tem polifenóis que reduzem a absorção. Idealmente, longe das refeições onde fazes o reforço com o ferro.

4. Aposta na densidade de ferro nas refeições

  • Fontes de ferro heme (biodisponibilidade entre 15 e 35%, melhor absorvido): Carne, sardinha, atum, cavala (ricos em ferro heme e ómega-3) . Mexilhão, amêijoa, berbigão (excepcionalmente ricos em ferro)
  • Fontes de ferro não-heme (combinar com vitamina C): Lentilhas, feijão-frade, feijão-preto, grão-de-bico, tofu, edamame, sementes de abóbora, sésamo, girassol, aveia em flocos, espinafres, couve-galega, agrião (cozinhados ligeiramente para reduzir o ácido oxálico)

5. Se a suplementação oral não resulta, há alternativas

Em alguns casos (intolerância gastrointestinal severa, má absorção, doença inflamatória intestinal, hemorragias significativas), o ferro oral não consegue resolver o problema. A administração por via intravenosa, em ambiente hospitalar, é uma alternativa que contorna por completo o eixo da hepcidina, indo directamente para a circulação. Não é um último recurso, é uma opção legítima a discutir com o teu hematologista ou ginecologista.

Plantas medicinais e ferropénia:

Na fitoterapia tradicional, há plantas que estão associadas à reposição de ferro, sendo a mais conhecida a urtiga (Urtica dioica). As folhas de urtiga são, de facto, ricas em ferro não-heme e em vitamina C, o que lhes confere valor nutricional como complemento.

No entanto, o seu valor é sobretudo nutricional e coadjuvante, integrada numa abordagem mais ampla. Se usares urtigas, fá-lo como infusão regular (uma colher de chá de folhas secas por chávena, em infusão durante 10 minutos), de preferência longe das refeições principais, para que os taninos da própria planta não interfiram com a absorção do ferro de outras fontes.

Perguntas frequentes

  • Posso ter ferropénia sendo vegetariana ou vegan? Sim, mas a prevalência de anemia em pessoas com alimentação vegetariana bem planeada não é maior do que na população geral. A chave é combinar fontes vegetais de ferro com vitamina C em todas as refeições e fazer um rastreio regular da ferritina.
  • Tomei ferro durante semanas e a ferritina não subiu. Porquê? Pode ser porque a dose estava a saturar a hepcidina (toma diária em vez de alternada), porque há inflamação activa, porque há perdas que continuam (menstruações abundantes, hemorragias gastrointestinais não diagnosticadas) ou porque o suplemento não está a ser bem absorvido. Reavalia com um profissional.
  • Café com leite ao pequeno-almoço é mau? Para alguém com ferropénia, sim, o pequeno-almoço com café e laticínios é uma combinação especialmente desfavorável se for tomado em paralelo com qualquer fonte de ferro. Idealmente, separa o café do pequeno-almoço por pelo menos uma hora.
  • A pílula influencia o ferro? A pílula combinada tende a tornar as menstruações menos abundantes, o que pode até melhorar as reservas de ferro a médio prazo. No entanto, no período pós-pílula, a reactivação do ciclo natural pode revelar uma ferropénia que estava mascarada.

Se este artigo te ajudou, partilha-o com uma amiga, irmã ou colega que ande cansada sem perceber o porquê. Pode mudar a próxima conversa que ela tiver com um profissional de saúde.

Aviso importante

Este artigo tem uma finalidade educativa e informativa. Não substitui a avaliação clínica individualizada. Se sentes sintomas persistentes, procura sempre uma profissional de saúde para uma avaliação personalizada antes de iniciares qualquer suplementação ou alteração significativa de hábitos.

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