Berberina: o que é, para que serve e que cuidados deves ter

A berberina tornou-se muito popular por, potencialmente, ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue, o colesterol e o peso. Mas o que é a berberina? A berberina é uma substância biologicamente activa derivada de algumas plantas, com resultados interessantes em algumas áreas, embora não apresente o mesmo efeito em todas as pessoas.

Se estás a pensar tomá-la, importa perceber o que a investigação realmente mostra, onde ainda existem dúvidas e por que é que “natural” não significa necessariamente seguro.

O que é a berberina?

A berberina é um alcalóide presente em diferentes plantas, incluindo espécies dos géneros Berberis, Coptis, Hydrastis e Phellodendron.

Um alcalóide é um composto produzido pelas plantas que consegue exercer efeitos fisiológicos no corpo humano. A cafeína e a quinina são outros exemplos conhecidos de alcalóides.

Esta substância, de cor amarela, encontra-se sobretudo nas raízes, nos caules e na casca das plantas. Tem uma longa história de utilização na medicina tradicional, particularmente nos problemas digestivos e infecciosos. Hoje, a investigação concentra-se principalmente nos seus possíveis efeitos metabólicos, ou seja, na forma como o organismo controla a glicose, a insulina e as gorduras.

A berberina vendida em suplementos apresenta-se frequentemente sob a forma de cloridrato de berberina. Contudo, os suplementos podem variar na origem botânica, na pureza, na concentração e na biodisponibilidade, ou seja, a quantidade de uma substância que é efectivamente absorvida pelo corpo.

Como actua?

A berberina parece actuar em várias vias ao mesmo tempo. Uma das mais estudadas é a AMPK, uma enzima que funciona como um sensor de energia dentro das células. Quando esta via é activada, pode favorecer a utilização da glicose, reduzir a produção de glicose pelo fígado e influenciar a forma como o organismo armazena e utiliza as gorduras.

Também têm sido estudados outros mecanismos, como o aumento dos receptores que retiram o colesterol LDL do sangue, a influência sobre a proteína PCSK9 e a modulação da microbiota intestinal. Estes mecanismos ajudam a explicar os resultados observados nos estudos.

A microbiota é o conjunto de microrganismos que vive no intestino e participa na digestão, na imunidade e na produção de várias substâncias importantes para o metabolismo.

Açúcar e insulina

A área mais estudada é a saúde metabólica. A resistência à insulina acontece quando as células deixam de responder adequadamente à insulina, a hormona que ajuda a transportar a glicose do sangue para o interior das células. Como compensação, o pâncreas produz mais insulina, situação que pode preceder a pré-diabetes e a diabetes tipo 2.

Uma meta-análise publicada em 2025 reuniu 12 ensaios clínicos controlados por placebo, com 889 participantes. A berberina esteve associada a reduções da glicemia em jejum, dos triglicéridos e do perímetro da cintura. Também se observaram melhorias no colesterol LDL, no colesterol total e na resposta da glicose duas horas depois de uma prova oral.

Outra revisão de 50 estudos, com 4150 participantes com diabetes tipo 2, encontrou uma redução média da glicemia em jejum quando a berberina foi utilizada isoladamente. No entanto, os estudos apresentaram uma heterogeneidade elevada, o que significa que diferiam bastante entre si quanto às pessoas avaliadas, às doses, à duração e aos tratamentos de comparação.

Estes resultados sugerem um possível efeito complementar. Se já tomas medicação para baixar os níveis de açúcar no sangue, a combinação pode aumentar o risco de hipoglicemia, ou seja, uma descida excessiva do açúcar no sangue.

Colesterol e triglicéridos

A berberina também tem sido estudada na dislipidemia, o nome dado às alterações do colesterol e dos triglicéridos. Numa revisão de 41 ensaios clínicos, com 4838 participantes, os produtos que continham berberina reduziram modestamente o colesterol total, o LDL e os triglicéridos. Contudo, vários produtos combinavam a berberina com outros ingredientes, como o arroz vermelho fermentado, o que dificulta saber quanto do efeito se devia exclusivamente à berberina.

Quando os investigadores analisaram apenas os produtos com berberina, os efeitos sobre o colesterol total e o LDL foram menos robustos, mas ainda assim interessantes. A decisão de tomares ou não a berberina depende do risco cardiovascular global, dos antecedentes familiares, dos valores laboratoriais e de outras condições de saúde.

Peso e apetite

A expressão “Ozempic natural” ajudou a tornar a berberina viral, mas não tem efectivamente fundamento científico. O Ozempic é um medicamento sujeito a receita médica, com um mecanismo, uma dose e uma eficácia específicas. A berberina é um composto diferente e não demonstrou resultados iguais.

No entanto, uma revisão recente de 23 estudos encontrou uma redução média aproximada de 0,88 kg no peso, de 0,48 kg/m² no índice de massa corporal e de 1,32 cm no perímetro da cintura, sendo as diferenças estatisticamente significativas.

No entanto, a simples utilização da berberina pode não ser suficiente para atingires os objectivos pretendidos. A alimentação, o movimento, o sono, a saúde hormonal e o contexto emocional continuam a ter um peso muito maior na regulação do peso.

Fígado gordo

A doença hepática gordurosa não alcoólica, actualmente também designada doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica, caracteriza-se pela acumulação de gordura no fígado num contexto frequentemente ligado à resistência à insulina, ao excesso de gordura visceral e às alterações dos lípidos.

Uma meta-análise de 10 ensaios clínicos, com 811 participantes, encontrou melhorias nas enzimas hepáticas, na resistência à insulina, no perfil lipídico e no índice de massa corporal quando a berberina foi utilizada como terapêutica complementar.

Atenção: A elevação das enzimas do fígado pode ter muitas causas. Por isso, a toma de berberina sem avaliação não é uma forma segura de “desintoxicar” o fígado e pode atrasar o diagnóstico correcto.

Berberina e SOP

A síndrome dos ovários poliquísticos, ou SOP, é uma condição hormonal e metabólica frequentemente associada à resistência à insulina, à ovulação irregular e ao excesso de androgénios (hormonas habitualmente chamadas masculinas, embora também existam no organismo feminino).

Uma meta-análise de 2024, com 10 ensaios e 713 mulheres, observou que a berberina, adicionada ao tratamento convencional, esteve associada a uma maior taxa de ovulação, a mais gravidezes clínicas e a uma redução da testosterona total.

Outra análise concluiu que os dados eram insuficientes para confirmar a sua eficácia na SOP com resistência à insulina. Assim, pode existir potencial como complemento em casos seleccionados, mas a berberina não deve ser tomada por iniciativa própria durante a tentativa de engravidar, sobretudo porque é desaconselhada na gravidez.

Intestino, humor e cancro

A berberina tem uma actividade antimicrobiana e parece alterar a composição da microbiota intestinal. Uma revisão global de 54 revisões sistemáticas encontrou sinais favoráveis em várias doenças crónicas, no entanto, os estudos tinham limitações metodológicas, ou seja, precisamos de mais estudos e mais robustos para termos a certeza.

Efeitos secundários

Os efeitos indesejáveis mais frequentes são digestivos. Podem surgir náuseas, dor abdominal, distensão, diarreia, obstipação e vómitos. A berberina também pode contribuir para uma descida excessiva da glicemia ou da pressão arterial, sobretudo quando é combinada com medicação que produz os mesmos efeitos.

Em 2026, um projecto de parecer da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos concluiu que os dados não permitiam estabelecer uma ingestão segura para as preparações vegetais avaliadas. O documento identificou lacunas nos estudos de toxicidade, possíveis interacções através de enzimas que metabolizam medicamentos e sinais de genotoxicidade em laboratório, isto é, capacidade potencial de danificar o material genético. À data do projecto, estes sinais ainda necessitavam de confirmação adequada em organismos vivos.

Quem deve evitar?

A berberina deve ser evitada durante a gravidez e a amamentação e não deve ser dada a bebés ou a crianças.

Também exige particular prudência nos adolescentes e nas pessoas com diabetes, doença do fígado, doença cardíaca, tensão arterial baixa ou alterações do ritmo cardíaco. A recomendação mais segura é não iniciar a suplementação sem uma avaliação individual, especialmente se existe uma doença diagnosticada.

Interacções medicamentosas

A berberina pode interferir com enzimas e transportadores que o organismo utiliza para processar medicamentos. Entre os fármacos com interacções descritas ou plausíveis encontram-se a ciclosporina, o tacrolímus, a digoxina, a metformina, alguns medicamentos para a tensão arterial, algumas estatinas e certos tratamentos oncológicos.

Isto não significa que todas as combinações causem necessariamente um problema, mas significa que a decisão deve ser revista por um profissional de saúde.

Antes de tomares berberina, leva para a consulta uma lista de tudo o que usas, incluindo os medicamentos, plantas medicinais e suplementos.

O principal ponto não é decidir se a berberina é “boa” ou “má”. É reconhecer que se trata de uma substância activa, capaz de produzir efeitos desejados, efeitos indesejáveis e interacções. Se ponderas utilizá-la, procura uma avaliação profissional que tenha em conta a tua saúde metabólica, a função hepática, os teus medicamentos e os teus objectivos.

Este artigo tem fins informativos e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento por um profissional de saúde.

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