Intestino e Hormonas Femininas: Como Estão Ligados e Como Cuidar da Saúde Intestinal

A ligação entre o intestino e as hormonas é um dos temas que mais me fascina na naturopatia, porque ajuda a explicar sintomas que muitas mulheres vivem sem perceber bem a origem, como o inchaço, a irregularidade menstrual ou as alterações de humor.

Neste artigo vais perceber de que forma a saúde intestinal influencia o equilíbrio hormonal, quais os sinais a que vale a pena prestar atenção e que estratégias podem ajudar a cuidar do intestino.

Claro que cada corpo é único, por isso encara esta informação como um ponto de partida para conversares com um profissional de saúde que te acompanhe.

Ligação entre o intestino e as hormonas.

O intestino é um dos principais órgãos responsáveis por eliminar o excesso de hormonas do corpo, sobretudo o estrogénio, que é a principal hormona feminina. Quando o intestino não funciona bem, este processo de eliminação fica comprometido e as hormonas podem começar a acumular-se ou a circular em excesso, o que se reflecte em sintomas físicos e emocionais.

Alguns sinais comuns de que o intestino pode estar a pedir atenção incluem:

  • dor abdominal
  • inchaço frequente
  • diarreia
  • obstipação
  • má digestão

Se te revês em vários destes sintomas, principalmente se coincidirem com alterações no ciclo menstrual, humor instável ou pele que reage de forma diferente ao longo do mês, pode valer a pena olhares com mais atenção para a saúde do teu intestino.

Como o intestino afecta o equilíbrio hormonal.

Existem vários mecanismos que explicam esta relação. Alguns são mais conhecidos, como a ligação entre a obstipação e o excesso de estrogénio, outros são menos falados, mas igualmente relevantes.

1. Baixa acidez do estômago

O ácido do estômago, também chamado ácido clorídrico, tem um papel fundamental na digestão, porque ajuda a quebrar os alimentos que mastigámos, tornando mais fácil a absorção dos nutrientes no intestino. Isto é especialmente importante para as proteínas, que são o nutriente mais difícil de digerir. Em condições normais, o estômago mantém um pH bastante ácido, próximo de 3, o que também ajuda a proteger o organismo de bactérias e outros agentes que possam ter entrado através dos alimentos.

Quando a acidez do estômago está baixa, a degradação dos alimentos torna-se menos eficiente e isso pode levar a défices de nutrientes, porque o intestino tem mais dificuldade em absorver o que ainda está em partículas maiores. Entre as carências mais associadas à baixa acidez gástrica estão o zinco, a vitamina B12 e o magnésio, três nutrientes essenciais para a produção hormonal.

2. Obstipação e a acumulação de estrogénio

A obstipação acontece quando há menos de três dejecções por semana, quando as fezes saem secas e duras ou quando ficas com a sensação de que o intestino não esvaziou completamente. Num intestino saudável, o ideal costuma rondar uma a três dejecções por dia, embora isto varie de pessoa para pessoa.

A relação entre a obstipação e as hormonas passa sobretudo pelo estrogénio. Depois de ser processado no fígado, o estrogénio segue para o intestino, de onde é eliminado através das fezes. Quando existe obstipação, este processo de eliminação torna-se mais lento e o estrogénio pode acabar por ser reabsorvido e voltar a circular no corpo. Com o tempo, isto pode contribuir para níveis de estrogénio mais elevados em relação à progesterona, uma situação conhecida como dominância estrogénica.

3. Disbiose intestinal e o metabolismo do estrogénio

O intestino alberga uma enorme variedade de bactérias que ajudam na digestão e que se alimentam principalmente de fibra. Ter uma boa diversidade destas bactérias é importante para conseguirmos digerir diferentes tipos de alimentos. A disbiose intestinal, acontece quando a proporção entre bactérias benéficas e bactérias menos benéficas se altera.

Esta alteração pode afectar directamente os níveis de estrogénio, porque o intestino regula parte do metabolismo desta hormona através de uma enzima chamada beta-glucuronidase, uma proteína que acelera as reacções químicas específicas no corpo. Numa situação de equilíbrio, esta enzima ajuda a converter o estrogénio numa forma mais fácil de eliminar, mas quando existe disbiose, a actividade desta enzima pode aumentar de forma desregulada, dificultando o processo de eliminação e favorecendo, mais uma vez, a obstipação e a recirculação do estrogénio.

4. Permeabilidade intestinal e a inflamação

A permeabilidade intestinal, está relacionada com o estado da parede do intestino. O interior do intestino delgado é revestido por uma camada de células com apenas uma célula de espessura, chamada lúmen, cuja função é deixar passar os nutrientes e impedir tudo o resto.

Quando esta barreira fica comprometida, os espaços entre as células alargam-se e permitem que toxinas e partículas de alimentos mal digeridos passem para a corrente sanguínea, o que não é desejável. Este processo aumenta a inflamação e reduz a absorção de nutrientes, podendo levar, ao longo do tempo, a sensibilidades alimentares.

Como muitas hormonas dependem de nutrientes específicos para serem produzidas, a permeabilidade intestinal pode limitar essa produção e, ao mesmo tempo, a inflamação associada tende a alimentar ainda mais os desequilíbrios hormonais.

5. Inflamação crónica e o equilíbrio entre estrogénio e progesterona

A inflamação é a resposta natural do corpo quando o sistema imunitário detecta uma ameaça ou uma lesão, e que se traduz na libertação de substâncias que aumentam o fluxo sanguíneo para a zona afectada. Quando este processo se torna crónico, acaba por ter impacto nas hormonas. Um dos efeitos é o aumento do cortisol, a hormona associada à resposta ao stress e com o tempo esta activação prolongada pode contribuir para desequilíbrios entre o estrogénio e a progesterona.

A inflamação pode ter várias origens, desde infecções intestinais e permeabilidade intestinal, até certos medicamentos ou sensibilidades alimentares. Um dos mecanismos envolvidos passa pelas prostaglandinas, substâncias semelhantes a hormonas que, entre outras funções, induzem as contracções uterinas responsáveis pelas cólicas menstruais. As prostaglandinas tendem a actuar em conjunto com o estrogénio e em sentido oposto à progesterona, pelo que níveis elevados de prostaglandinas costumam estar associados a estrogénio alto e progesterona baixa.

6. Os neurotransmissores do intestino e o humor

Os neurotransmissores são substâncias que nos permitem sentir emoções e a serotonina é um dos mais conhecidos, associada muitas vezes à sensação de bem-estar. Uma parte significativa da serotonina que produzimos tem origem no intestino e não apenas no cérebro, como se pensa muitas vezes.

Quando o intestino não está equilibrado, a produção de serotonina também pode ficar afectada, o que ajuda a explicar porque é que, em dias de maior desconforto digestivo ou de maior desequilíbrio hormonal, é tão comum apetecer mais doces ou pão. Os hidratos de carbono dão um pequeno estímulo à produção de serotonina e o corpo procura, de forma instintiva, esse alívio.

7. Beta-glucuronidase elevada e a reciclagem do estrogénio

Já referi a beta-glucuronidase a propósito da disbiose, mas além de ajudar a decompor os hidratos de carbono complexos e fibra, a beta-glucuronidase é responsável por transformar o estrogénio numa forma mais fraca, chamada estriol, facilitando a sua eliminação.

Quando existe disbiose intestinal, os níveis desta enzima podem aumentar de forma excessiva, o que interfere com esta segunda etapa da desintoxicação do estrogénio. Nessa situação, o estrogénio não consegue converter-se correctamente na sua forma de eliminação e acaba por voltar a circular no corpo, contribuindo para o desequilíbrio entre o intestino e as hormonas.

8. Agentes patogénicos intestinais e a exaustão do organismo

Estamos constantemente expostos a agentes patogénicos, seja através dos alimentos que comemos ou do ar que respiramos. Normalmente, o corpo consegue lidar bem com estas exposições, mas este processo pode ser dificultado quando a saúde intestinal e o equilíbrio hormonal já não estão muito bem.

Se uma quantidade maior destes agentes conseguir atravessar a parede intestinal, a inflamação e a resposta de stress do corpo tendem a aumentar, logo, enquanto esta situação não for resolvida, a resposta inflamatória mantém-se activa e, com o tempo, pode contribuir para um estado de exaustão associado à libertação contínua de cortisol, que na naturopatia é por vezes descrito como fadiga adrenal. Importa referir que este conceito não é amplamente reconhecido pela medicina convencional, por isso vale a pena discuti-lo com um profissional de saúde que conheça bem o teu historial.

Suplementos podem ajudar a cuidar da saúde intestinal

Existem alguns compostos que têm sido estudados pelo seu papel na reparação da parede intestinal e no equilíbrio da microbiota, a comunidade de bactérias que vive no intestino. Antes de introduzires qualquer suplemento, fala com um profissional de saúde, porque as necessidades variam muito de pessoa para pessoa e alguns destes compostos podem interagir com medicação ou não ser adequados em certas situações.

L-glutamina

A L-glutamina é um aminoácido essencial, o que significa que o corpo normalmente produz o que precisa, mas em períodos de maior stress físico, ou noutras situações específicas, pode ser necessário obtê-la também através da alimentação ou de suplementação.

Vários estudos sugerem que a L-glutamina pode proteger o intestino contra o desgaste provocado pelo stress, sobretudo em atletas, e que pode ajudar a prolongar a vida dos enterócitos, as células que revestem a parede do intestino delgado. Ao apoiar a saúde destas células, a L-glutamina pode ser útil na protecção contra a permeabilidade intestinal.

Carnosina de zinco

A carnosina de zinco é um composto que combina, numa proporção de um para um, o zinco, um mineral essencial para muitas reacções químicas do corpo, com a carnosina, uma molécula composta por dois aminoácidos e que se encontra em maior concentração no cérebro e nos músculos.

Alguns estudos indicam que a carnosina de zinco pode melhorar a integridade da parede intestinal, estimulando a renovação das células do intestino delgado e reduzindo lesões provocadas por toxinas ou agentes patogénicos.

Alcaçuz desglicirrizinado, também conhecido por DGL

A raiz de alcaçuz é rica em compostos bioactivos, mas contém também uma substância chamada glicirrizina, que em quantidades elevadas pode causar efeitos secundários. Por isso, na suplementação para a saúde intestinal costuma usar-se a versão desglicirrizinada, conhecida como DGL.

Estudos realizados em pessoas com dispepsia funcional, uma condição digestiva que causa desconforto persistente, sugerem que o DGL pode ajudar a reduzir esse desconforto e investigação em modelos animais aponta também para um possível efeito protector da mucosa intestinal.

Raiz de altea, ou malvaísco

A raiz de altea, também conhecida como malvaísco, é rica numa substância chamada mucilagem, que ajuda a aumentar a camada de muco que protege o intestino. Esta protecção adicional pode ajudar a aliviar a inflamação, a prevenir a obstipação e a apoiar a integridade das junções entre as células intestinais.

Tem também propriedades antioxidantes e parece influenciar a actividade da histamina, uma substância envolvida em processos inflamatórios.

Berberina

A berberina é um composto que se encontra em várias plantas e que é usado há muito tempo na medicina tradicional chinesa pelas suas propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias. Tem sido estudada no contexto das doenças inflamatórias intestinais, e outro estudo associou-a a benefícios na doença hepática gorda não alcoólica, ao ajudar a aumentar a produção de muco intestinal e a recuperar os níveis de uma proteína chamada ocludina, importante para a estrutura das junções entre as células do intestino.

Curcumina

A curcumina é o composto bioactivo responsável pela cor característica da curcuma, também chamada açafrão-da-índia e tem sido associada a diversos benefícios tanto para o intestino como para o equilíbrio hormonal.

As suas propriedades anti-inflamatórias parecem ajudar na saúde intestinal e na integridade das junções entre as células, além de contribuir para o equilíbrio da microbiota e, por consequência, para uma melhor absorção de nutrientes. Uma limitação conhecida da curcumina é a sua baixa biodisponibilidade, ou seja, a dificuldade que o corpo tem em absorvê-la. Combinar a curcuma com pimenta preta, ou procurar suplementos de curcumina com piperina, o composto bioactivo da pimenta preta, pode ajudar a melhorar essa absorção.

Como leste, a ligação entre o intestino e as hormonas femininas passa por vários mecanismos, desde a acidez do estômago e o trânsito intestinal, até à composição da microbiota e à integridade da parede intestinal. Cuidar do intestino não é garantia de resolver todos os desequilíbrios hormonais, mas pode ser um passo importante para reduzir sintomas e apoiar o corpo neste processo.

Se te revês em vários dos sinais que fui referindo, talvez valha a pena começares por observar com mais atenção o teu trânsito intestinal e a tua alimentação, além de considerares, com o acompanhamento de um profissional de saúde, se algum dos suplementos que mencionei faz sentido para a tua situação. Cada corpo tem o seu próprio ritmo e as suas próprias necessidades, por isso o mais importante é encontrares um acompanhamento que tenha em conta o teu historial e as tuas particularidades.

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